segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Site do PMDB convoca ato pró-Lula em Porto Alegre

O site do PMDB, partido do presidente Michel Temer, publicou uma mensagem do senador Roberto Requião convocando “bolivarianos” para “fazer festa” em Porto Alegre no dia do julgamento de Lula no TRF-4, 24 de janeiro.

Vejam a mensagem do senador:

“Bernie Sanders, Corbyn, Cristina Kirchner, Mujica, Rafael Correa, López Obrador, Jimmy Carter, Melechon, Beppe Grillo, Evo Morales, Podemos, a esquerda Grega, Boaventura e nossos irmãos portugueses, Lugo, Beatriz Sánchez, Bachelet, Guillier, Salvador Nasralla, Zelaya, bolivarianos e todos nossos irmãos latinoamericanos estão todos convidados para assistirem ao vivo em Porto Alegre o julgamento de nosso ex-presidente Lula e assim poderem dizer ao mundo se está sendo um julgamento justo, imparcial e equilibrado!

Façamos festas, shows, encontros para receber com hospitalidade nossos irmãos democratas de tudo mundo em Porto Alegre!”

O QUE O PT FEZ PELO BRASIL

Dilma Rousseff foi afastada do seu mandato como presidente reprisando aquilo que o seu partido vem insistindo em dizer nos últimos anos: que transformou um país miserável num lugar de dignidade, especialmente para os mais pobres. Só tem um problema nesse discurso: ele não é real. Longe do marketing político, o Brasil permanece onde sempre esteve – ainda miseravelmente pobre, sujo e ignorante.

Talvez você não saiba disso, mas há mais de 25 milhões de brasileiros (uma Austrália) vivendo com uma renda domiciliar per capita inferior à linha de pobreza, e mais de 8 milhões (uma Suíça) vivendo abaixo da linha de extrema pobreza (ou seja, na indigência). Mais da metade das casas brasileiras vivem com até um salário mínimo. E pobreza está longe de ser o nosso único problema.

Nós ainda somos um país terrivelmente ignorante. Segundo o IBGE, 39,5% das pessoas aptas a trabalhar no Brasil não possuem sequer o ensino fundamental e mais de 13 milhões de brasileiros são incapazes de ler um texto como esse pela única razão de serem analfabetos – e se você não faz ideia do que esse número significa, imagine que se somarmos a população do Uruguai, da Nova Zelândia e da Irlanda não alcançaremos a quantidade de analfabetos que existem por aqui. É muita gente.

E ainda há os analfabetos funcionais. Segundo um estudo publicado em fevereiro pelo Instituto Paulo Montenegro em parceria com a ONG Ação Educativa, 27% da nossa população pertence a essa categoria. Achou o número alto? De acordo com a pesquisa, apenas 8% dos brasileiros têm condições de compreender e se expressar plenamente (isto é, são capazes de entender e elaborar textos de diferentes tipos, seguindo normas gramaticais).

E não vá pensando que a língua portuguesa é o único dos nossos problemas. Segundo um estudo da ONG Todos Pela Educação, apenas 4,9% dos estudantes da rede pública saem do ensino médio com conhecimentos básicos em matemática. Em resumo: nós ainda não sabemos nos expressar direito, nem fazermos contas básicas de aritmética.

Na média, os nossos estudantes passam menos tempo numa escola que os estudantes do Irã e da Cisjordânia e os nossos professores recebem os piores salários do mundo – na penúltima posição no ranking da OCDE (no mesmo índice nós ainda "celebramos" a mais baixa média de pessoas com ensino superior e o terceiro pior índice entre os que completam o ensino médio).

E educação é apenas uma amostra da nossa miséria. Se ela funciona muito longe do que é aceitável, com a saúde o cenário é ainda pior. Num índice elaborado pela Bloomberg que compara a expectativa de vida da população com o gasto em saúde, o Brasil está na última posição no ranking dos sistemas de saúde mais eficientes do mundo. Em geral, a nossa população sobrevive em hospitais públicos caindo aos pedaços, lidando com um número de médicos per capita muito abaixo do ideal, com falta de remédios e recursos.

Também possuímos gargalos de terceiro mundo no saneamento básico. Segundo dados do Ministério das Cidades, mais de 35 milhões de brasileiros não possuem acesso sequer ao abastecimento de água tratada. É como se houvesse um Canadá inteiro sem uma mísera torneira jorrando água dentro de casa. De acordo com o relatório, quase 100 milhões de brasileiros não possuem acesso nem à coleta de esgoto – e do esgoto coletado, apenas 40% é tratado. 17 milhões de pessoas (uma Holanda) não têm acesso à coleta de lixo (e nunca é demais lembrar que cada brasileiro produz, em média, 1 quilo de lixo por dia) e outras 4 milhões de pessoas (uma Croácia) não possuem sequer um banheiro em casa. Já imaginou? Eis o caos do cocô.

Também temos um déficit habitacional de 6,2 milhões de moradias (e aqui não estamos falando apenas da falta de residências, mas também de habitações em más condições), que afeta dezenas de milhões de pessoas, expostas às piores condições possíveis.

E se a infraestrutura micro é inoperante, a macro é praticamente inexistente. No índice que mede a qualidade da infraestrutura de um país, organizado pelo Fórum Econômico Mundial, nós ocupamos o vergonhoso 120º lugar em 144 posições possíveis, atrás de países como Etiópia, Suazilândia, Uganda, Camboja e Tanzânia. Só pra se ter uma ideia, dos 29.165 quilômetros de malha ferroviária que o Brasil possui, apenas um terço é produtivo. Passados quase dois séculos, o número é equivalente ao período do Império no Brasil.

Num ranking elaborado pelo IPEA a partir da análise da qualidade do setor portuário, estamos na 123ª posição entre 134 países (todos os portos brasileiros somados movimentam menos conteineres que o porto de Hamburgo, na Alemanha). Em outro ranking, o dos países mais competitivos do mundo, estamos na 75ª posição, atrás de países como Irã, Marrocos, Ruanda e Cisjordânia – segundo o Fórum Econômico Mundial porque nossos sistemas regulatório e tributário são inadequados, nossa infraestrutura é deficiente e nossa educação é de baixa qualidade.

O resultado inevitável disso tudo? Pobreza e baixa qualidade de vida. Hoje quatro trabalhadores brasileiros são necessários para atingir a mesma produtividade de um trabalhador norte-americano (em 1980, um brasileiro tinha produtividade equivalente a 40% da de um americano; hoje, ela está em 24%). Há dez anos, em média, ganhávamos 50% a mais que os chineses – hoje ganhamos 20% a menos.

E isso para não falar de segurança pública. Em 2014, nós registramos o maior número de assassinatos da nossa história: foram 59.627 homicídios. Visto de outra perspectiva, o crime mata mais no Brasil do que a guerra entre Israel e Palestina, e outros confrontos bélicos ao redor do mundo. Segundo o Atlas da Violência 2016, do IPEA, nós detemos o título mundial de assassinatos no planeta. Não é pouca coisa. A taxa de homicídios por aqui é quase três vezes maior daquela que a ONU classifica como 'epidêmica'. Ou seja, nós estamos muito abaixo daquilo que já é considerado inaceitável.

Muito longe da prosperidade, Dilma encerrou 13 anos de Partido dos Trabalhadores no controle de um país que permanece duramente miserável, ignorante, sujo e violento. Apesar da propaganda oficial, num olhar distante das nossas paixões políticas sobre a realidade, o fato é que ainda estamos muito longe de mudarmos a nossa condição subdesenvolvida, apesar das tentativas de estancarem o sangue jorrado em nossas feridas com band-aids, enaltecidas pelo antigo governo.

A solução para resolver todos esses problemas? Certamente não virá da noite para o dia, como num passe de mágicas. Passará por reformas institucionais que abram o país para o comércio internacional, diminuam o inchaço da máquina pública, aumentem os investimentos em infraestrutura e ampliem os direitos de propriedade.

Longe do populismo e perto dos bons incentivos econômicos.

Chegou a hora de finalmente entrarmos no século 21 e abandonarmos o marketing político como sinônimo de verdade.

Texto por Rodrigo da Silva
Nota do editor: este texto de Rodrigo da Silva, publicado no excelente Spotniks.com é de 09/2016, mas merece ser divulgado e repassado.

PARLAMENTARISMO, UM SISTEMA BEM-SUCEDIDO

Com exceção dos Estados Unidos, o presidencialismo nas Américas tem sido um permanente fracasso. Todos os países que o adotaram tiveram golpes de Estado, revoluções e períodos de uma frágil democracia.
Se analisarmos, depois da 2.a Guerra Mundial os principais países sul-americanos foram agitados por rupturas institucionais e regimes de exceção. Assim, Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia, Peru, Venezuela, Cuba, etc., passaram por rupturas democráticas e pela implantação de regimes de força.
O Brasil, que viveu 42 anos no sistema parlamentar monárquico, desde 1889 jamais teve um período tão longo de estabilidade. De 1889 a 1930, foram 41 anos interrompidos pela ditadura Vargas (de 1930 a 1945). O período de 1946 a 1964 (18 anos) terminou com a revolução de 31 de março. A redemocratização de 1985 deu início a um período de 31 anos, com dois impeachments presidenciais e alta instabilidade. Os governos dos presidentes Lula e Dilma Rousseff levaram o País à crise econômica sem precedentes em sua História, com queda assustadora do PIB, 11,5 milhões de desempregados, retorno da inflação e fantástico nível de corrupção.
Decididamente, o presidencialismo não é um bom sistema, pois confunde o chefe de Estado com o chefe de governo e este, quando eleito, se sente dono do poder, transformando-o, o mais das vezes, numa ditadura a prazo certo.
Presidi entre 1962 e 1964, na cidade de São Paulo, o extinto Partido Libertador, o único partido autenticamente parlamentarista entre os 13 existentes até o Ato Institucional n.° 2. Declarava Raul Pilla, seu presidente nacional, ser o parlamentarismo o sistema de governo da "responsabilidade a prazo incerto", pois, eleito um chefe de governo irresponsável, por voto de desconfiança é alijado do poder, sem traumas. O presidencialismo, ao contrário, considerava Pilla, é o sistema "da irresponsabilidade a prazo certo", pois, eleito um presidente incompetente ou corrupto, só pelo traumático processo do impeachment é possível afastá-lo.
Vejamos, por exemplo, o Brasil atual. Desde 2014 os sinais de fracasso do modelo econômico adotado eram evidentes, mas só houve consenso em iniciar o processo de impeachment em meados de 2016.
Arend Lijphart, professor da Universidade Yale, publicou um livro, em 1984, intitulado Democracies: Patterns of Majoritarian & Consensus Government in Twenty-one Countries. Examinou o sistema dos 21 principais países do mundo onde não houvera ruptura institucional depois de 2.a Guerra Mundial e encontrou 20 hospedando o parlamentarismo e só os Estados Unidos presidencialista.
Historicamente, os dois sistemas têm origem na Inglaterra, o parlamentar (1688/89), e nos Estados Unidos, o presidencial (1776/87). A própria influência inglesa nas 13 colônias levou os norte-americanos a adotar um sistema presidencial quase parlamentar, pois lá o Congresso tem participação decisiva nas políticas governamentais.
O grande diferencial entre parlamentarismo e presidencialismo reside na responsabilidade. No parlamentarismo, o mau desempenho é motivo de afastamento do primeiro-ministro, eleito sem prazo certo para governar. A própria separação entre chefe de Estado e chefe de governo cria um poder ultrapartidário capaz de intervir nas crises, seja para avalizar novos governos escolhidos pelo Parlamento, seja para dissolver o Parlamento quando este se mostre também irresponsável, a fim de consultar o povo se aquele Parlamento continua a merecer a confiança do eleitor.
O simples fato de o chefe de governo ter de prestar contas ao Parlamento e os parlamentares poderem voltar mais cedo para casa impõe a seus governos a responsabilidade, característica dominante no sistema parlamentarista.
Por outro lado, a separação da chefia de governo da chefia de Estado – algo que, no presidencialismo, se confunde na mesma pessoa – facilita a adoção de outros atributos próprios do sistema parlamentar, como o da burocracia profissionalizada. Este jornal publicou em 3/1/2015 que, enquanto o governo parlamentar alemão tinha 600 funcionários não concursados para tais funções, a presidente Dilma Rousseff tinha 113 mil.
Eleito um governo, este escolherá entre os servidores públicos que estão no topo da carreira os que mais se afinam com a maneira de ser do novo governo. Gozam os presidentes dos Bancos Centrais de autonomia maior, quando não de independência. Por essa razão, nas quedas de Gabinete os servidores administram o País até a escolha de um novo governo, sem a economia ser afetada.
Acrescente-se que a maioria dos países parlamentares adota o voto distrital puro ou misto, o que facilita o controle do eleitor sobre o político eleito.
Os modelos parlamentaristas são diversos, com maior ou menor atuação do chefe de Estado. Alguns até exercem funções de governo, como nos modelos francês e português, por exemplo, mas a regra é não exercê-las.
Também os partidos políticos se fortalecem no parlamentarismo, enquanto no presidencialismo se esfacelam, à luz da maior força do presidente. Quando se diz que o Brasil não pode ter o parlamentarismo porque não tem partidos políticos, respondo que o Brasil não tem partidos políticos porque não tem o parlamentarismo. Cláusula de barreira é fundamental para evitar legendas de aluguel, algo que, no Brasil, é um dos maiores males do presidencialismo.
Creio que chegou o momento de repensar o modelo político brasileiro e adotar o sistema parlamentar, que sempre deu certo no mundo, substituindo o adotado pelo Brasil, cujo fracasso é fantasticamente constante na sua História. (O Estado de S. Paulo – 14/09/2016)

texto de: IVES GANDRA DA SILVA MARTINS 
(PROFESSOR EMÉRITO DAS UNIVERSIDADES MACKENZIE, UNIP, UNIFIEO E UNIFMU, DO CIEE/" O ESTADO DE S. PAULO", DA ECEME, DA ESG E DA ESCOLA DA MAGISTRATURA DO TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL-13 REGIÃO)
 

Indulto natalino é o "whisk and bowl"!


Às vésperas do Natal, Michel Temer chancela o que sempre sustentei.
Temer é sim, quer queiram ou não, um tampão de bueiro e a xepa do governo mais corruPTo que a história do Brasil já registrou, qual seja, o governo de Dilma Rousseff.

Desde que Temer tomou posse sustento que não era só Dilma que deveria ser cassada e tornada inelegível, e sim tanto Dilma e tanto Temer.

E dizer que muitos viam em Temer um estadista.

É de chorar a ignorância, a ingenuidade e a falsa percepção que se tem da realidade. Fato extremamente preocupante. Ainda mais para as eleições presidenciais de 2018 que se avizinham.

Um povo que desconhece os políticos que tem deve ligar seu alerta máximo, haja vista que por tal desconhecer, passa a receber tudo como solução aceitável.

Agora vem o "gran finale": Temer deu o maior indulto natalino já registrado no Brasil para a bandidagem.

Destaco, antecipando o prazo de indulto, até mesmo, pasmem, para crimes de colarinho branco.

Por que será?

Ora veja, é ululantemente óbvio que é para beneficiar seus capachos e asseclas.

Não bastasse a drástica redução da pena que se concede com as tais delações premiadas, a prescrição de mais de 96% (noventa e seis por cento) dos processos de quem têm foro privilegiado no STF, agora um oásis de indulto natalino para a bandidagem.

Indulto natalino é o "whisk and bowl"!

Brasil, terra da bandidagem e da impunidade, isso sim.


texto de Pedro Lagomarcino, advogado.
Publicado no Jornal da Cidade On Line


Nota redação BECC: "whisk and bowl", em português deu a corruptela 'escambau'.

Bandalheira política de Temer no indulto natalino


Com a expedição do decreto Nº 9.246, de 21.12.17, concedendo indulto natalino a corruptos, o Presidente Michel Temer conseguiu demonstrar mais que nunca que a indecência política tomou as rédeas na nação e que não tem mais quaisquer limites.

Censurando essa medida ,o Procurador Deltan Dallagnoll, coordenador do Ministério Público na força-tarefa da Operação  Lava Jato, atacou com veemência esse indulto que pode reduzir penas por crimes de colarinho branco em até 4/5 ,ou seja, desde que cumprida 1/5 ou 20% da pena.  

Dezenas de réus condenados, cumprindo penas por crimes cometidos e apurados na Operação Lava Jato deverão ser beneficiados com essa “oportunista” medida governamental.

Esse talvez possa ser considerado o mais nítido exemplo das ‘barbaridades’ consentidas por uma Constituição Federal que não passa de ‘lixo’, impondo-se a sua urgente revogação e substituição, porém jamais pela classe política que hoje impera. Se isso por alguma desgraça acontecesse, certamente surgiria algo pior.




Volta e meia a “sagrada” Constituição Federal de 1988 mostra as suas “garras”.   E seus dispositivos favorecem a corrupção, concentrando na Presidência da República poderes tão imensos que geralmente só têm equivalência nas tiranias. 

Por isso não dá para entender as frequentes “brigas” do Governo brasileiro com o ditador Nicolás Maduro, da Venezuela, já que são como “farinha  do mesmo saco”.

A exemplo de tantos outros, o problema começa “lá” na Constituição Federal. O artigo 84, XII, reconhece competência PRIVATIVA ao Presidente da República para “Conceder indulto natalino e comutação de penas, com audiência, se necessário, dos órgãos instituídos em lei”. A “baderna” e os abusos começam aí.

Algumas leis pontuais disciplinam certos dispositivos do mandamento constitucional. Além desses limites legais, o Presidente da República pode indultar ou comutar penas e seu bel prazer. 

Resumidamente pode ser afirmado com segurança que o poder do Presidente da República é bem maior do que os dos outros Dois Poderes (Legislativo e Judiciário), afrontando o princípio dos “freios e contrapesos” que deveriam nortear o equilíbrio, a harmonia e a independência entre os Três Poderes. A liberdade que o Presidente tem de conceder esses favores a condenados supera em muito as restrições que ele têm, excepcionalmente  previstas em lei.  

O indulto natalino desse ano de 2017 pode ser considerado um escândalo. Foi mais ou menos como brincar com um joguinho de quebra-cabeças. “Pegaram” o perfil dos corruptos “amigos-da-casa” que eles queriam beneficiar e transformaram esse perfil em decreto, mais precisamente, no Decreto 9.246/17.

“Até quando, enfim, Michel Temer, abusará da nossa paciência”?(*) (parafraseando Marco Túlio Cícero, o maior orador da Roma Antiga, nas “Catilinárias: “Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia mostra?”.

Sérgio Alves de Oliveira, advogado e sociólogo.

No Jornal da Cidade On Line
(*) negrito da redação da BECC



LULA LÁ

Luiz Inácio Soltinho da Silva vai enfim se ver com a Justiça. O maior e mais querido ladrão brasileiro será julgado em segunda instância ao raiar de 2018. Confirmada a sua condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, será preso.
Absurdo. Todo mundo sabe que roubar o povo não é pecado se você é coitado profissional, e seus métodos são aprovados por cantores da MPB. Outro dia mesmo, Tiririca subiu à tribuna para fazer seu primeiro e último discurso como deputado — comovendo o Brasil ao declarar sua vergonha dos políticos corruptos e defender Lula. Certas formulações éticas só um palhaço é capaz de fazer.
Até o mosqueteiro Dartagnol Foratemer abandonou seu PowerPoint para catar voto em sarau de subcelebridade petista, que ninguém é de ferro. Aquela floresta de crimes palacianos montados por Lula e Dilma, que levou o país à maior crise de sua história, ficou para trás. A antiga Lava-Jato, que obrigava o jovem investigador a andar atrás dos incontáveis delinquentes do bando, dava um trabalhão — fora ser xingado todo dia de golpista, fascista, androide etc. pelos colegas mais cultos do Tiririca.
Foi só deixar Lula e sua gangue em paz para a histeria virar carinho, nos melhores endereços da Vieira Souto. É a Lava-Jato gourmet — mais prática e limpinha, que você leva para qualquer convescote que o companheiro Molon te chamar. Numa emergência, dá até para fazer justiça pelo Twitter. São as maravilhas da modernidade.
Se a Independência do Brasil foi proclamada no grito, a inocência do filho dele também pode ser. Foi assim que Lula apareceu semana passada na porta do Comperj para um comício em defesa da Petrobras, aquela que ele estuprou. Para quem não está ligando o nome à pessoa (se há algo inteiramente fora de moda é ligar nomes a pessoas, e a seus respectivos crimes), Comperj é o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, um dos centros da roubalheira petista descobertos pela operação Lava-Jato (na versão velha, que dava um trabalhão e era coisa de golpista).
A desinibição dessa alma honesta é mais do que compreensível. Se você estupra a Petrobras e continua sendo mimado por supostos expoentes da cultura nacional (e por boa parte da opinião pública), você é no mínimo um bom selvagem. Vai fundo, companheiro. Como diria Maluf, estupra mas não mata. E se por acaso matar, como você matou o futuro de pelo menos uma geração com seu assalto sem precedentes aos cofres públicos, pede desculpas pelo mau jeito, como você fez no mensalão, e vai em frente sem perder a ternura.
Como prender um homem desses? O Brasil não pode tolerar tal nível de perseguição contra esse mito da fofura selvagem, esse bibelô da esquerda imaginária, que rouba dos pobres para dar aos defensores dos pobres.
O que será da lenda progressista? E os shows heroicos em defesa dos movimentos revolucionários de aluguel? O que vão fazer da vida essas simpáticas almas penadas e seu desbunde de resultados? Logo agora, com os cafetões da bondade no auge, emplacando qualquer lixo que se pareça com defesa de minoria oprimida, vocês querem prender o papa da alta prostituição ideológica?
Não passarão! A revolta já foi marcada por José Dirceu — solto, podre de rico e sambando no pé — para o dia 24 de janeiro. O fabuloso caixa da revolução, montado ao longo de 13 anos com o suor do seu rosto, caro leitor, será derramado na já lendária resistência democrática da porrada. 
Os bravos candidatos ao Prêmio Joesley de Jornalismo divulgarão lindas imagens de pneus em chamas noticiando as “manifestações contra a prisão de um líder popular”. Mandela sumirá na poeira da História, Jesus Cristo talvez se mantenha numa nota de rodapé.
Enquanto isso, nas Minas Gerais do companheiro Fernando Pimentel, a Polícia Federal investiga o sumiço de alguns milhões de reais no Memorial da Anistia. Eles vão lutar contra a ditadura do século passado até o último centavo do contribuinte.
Infelizmente, o golpe de Janot com Fachin e os açougueiros biônicos falhou, e a gangue não pôde voltar a ordenhar o Tesouro Nacional. Mas dinheiro não é problema. Só a provisão para os advogados milionários das dezenas de réus da quadrilha — mais o laranjal regado pelo BNDES por mais de década — daria para tapar boa parte do rombo da Previdência. 
Se há um Brasil onde ninguém sofrerá por causa de aposentadoria, é o do Partido dos Trabalhadores que não trabalham.
O problema é que o resto do país está melhorando após a descupinização do Estado, com a menor taxa de juros em 30 anos, inflação em queda e PIB em recuperação. Isso é grave. 
Se continuar assim, o que os simpáticos palhaços da lenda irão recitar em suas turnês folclóricas? Abaixo Papai Noel? Fora Tender?
Lula está fazendo a sua parte, semeando com o talento de sempre o mau agouro e o ressentimento numa campanha presidencial fictícia. Ele inclusive anunciou que vai regular a comunicação. Faz muito bem. Carcereiro não gosta de papo furado.
texto: Guilherme Fiuza, em O Globo

VAI-SE O QUEIJO, PRESERVAM-SE OS RATOS.

Não localizei o vídeo. O trecho a que vou me referir, provavelmente fazia parte de uma fala em que José Dirceu, discorrendo sobre a importância da política, afirmou aos companheiros, em Canoas/RS, que “se o projeto político é o mais importante, o principal é cuidar do PT”. Só localizei fragmentos desse pronunciamento no YouTube. Mas nesse ou noutro vídeo da mesma época, o então Chefe da Casa Civil de Lula fez uma referência à importância do controle dos fundos de pensão.
Homem de visão, o Zé! Tudo aconteceu conforme previsto por ele: o PT passou a controlar os fundos; e tudo andou conforme o previsível: abriu-se um colossal rombo nas contas dessas importantes instituições – R$ 78 bilhões, em números de junho deste ano!
Mais de duzentos mil empregados e pensionistas de empresas estatais serão chamados, ou já estão fazendo isso, a aumentar, em muito, suas contribuições aos respectivos fundos de pensão. Os participantes e pensionistas da Petros já sabem que precisarão aportar R$ 14 bilhões em 18 anos. Outro tanto (13,5 bilhões) será assumido pela “nossa” amada Petrobras. A Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc), interveio no Postalis e, diante do que tem descoberto, vai “aumentar o valor das punições por má gestão”, hoje limitado a ridículos R$ 40 mil.
Nada disso me surpreende. Tudo estava previsto desde o momento em que Lula subiu a rampa do Palácio do Planalto e a máquina petista se instalou no coração do governo e do Estado brasileiro. Até Deus se negou a nos acudir no subsequente Deus-nos-acuda.
Quando Carlinhos Cachoeira gravou o achaque de Waldomiro Diniz (2004) e Roberto Jefferson denunciou o mensalão (2005), o país tomou ciência de que havia uma organização criminosa atuando em larga escala no aparelho de Estado. 
Dez anos depois, quando se encerrou o julgamento do mensalão e a Lava Jato iniciou atividades, provavelmente os seis ministros que desconheceram o crime de formação de quadrilha eram os únicos cidadãos brasileiros que ainda se recusavam a admitir sua existência. Mas como entender, agora, esses eleitores de Lula e, mais especificamente, o silêncio das vítimas do rombo nos fundos de pensão? Por que não vejo carro de som, megafone ou apedidos na imprensa denunciando a gestão irresponsável desses planos por militantes partidários? Afinal, desde 2003 esses recursos estavam na mira do Zé, da política e, portanto, do partido que os usou para negócios, com destaque para os bilionários financiamentos concedidos aos projetos fracassados das “campeãs nacionais”.
Diante de tudo isso, não posso deixar de pensar na Síndrome de Estocolmo, ou seja, na afeição do sequestrado pelo sequestrador. É um fato que, por si só, mostra o tamanho de outro rombo, aberto na consciência política de tantos brasileiros. Ele se expressa na dedicação a quem lhes tomou a carteira e levou junto, como moedas do bolso, alguns dos mais humanos sentimentos de indignação e revolta. 
texto: Percival Puggina

PÓS-POLÍTICA

Diante do quadro de desgaste sofrido pela política ultimamente, observamos cada vez mais o surgimento e crescimento de grupos que estão se posicionando de forma diferente. A proposta de muitos deles é pensar uma espécie de pós-política, uma ideia que vai além de partidos e ideologias, uma iniciativa que visa pensar o Brasil.
Este fenômeno é natural nas democracias que vêm amadurecendo, situação que vivemos em nosso país. É uma iniciativa interessante e necessária, mas não deixa de guardar uma parcela de ingenuidade. Movimentos que tentam enxergar a política por este prisma, em pouco tempo, tendem a tornam-se reféns de seus mecanismos de poder.
Diante desta concepção inocente, diria que até certa medida puritana, estes grupos veem o governo atual de forma tão negativa como o governo passado. Não trata-se de disputas sobre grau de corrupção, mas a crença de que o sistema como um todo esteja apodrecido, abrindo a necessidade imediata de ruptura, por meio da renovação completa dos quadros.
A ingenuidade resulta em acreditar que este movimento resolve o problema posto. Sabemos que a representação é um retrato da sociedade. Não há como dissociar o comportamento dos políticos das cenas dantescas de barbárie ocorridas na semana passada nos arredores do Maracanã. Se nossa política encontra-se doente, estamos diante do fato de que vivemos em uma sociedade com problemas na mesma medida, que escolhe como seus representantes os seus semelhantes.
Assim, de pouco adianta acusar o governo de corrupto, se diante das câmeras vimos pessoas batendo carteiras, furtando celulares e achacando estrangeiros que se dirigiam para assistir a partida. Estas cenas de vandalismo, diante da violência cotidiana, em pouco tempo cairão no esquecimento, mas precisamos entender que estes votarão em pessoas com as quais guardam identidade.
A saída da crise sempre está na política. Ambos impedimentos presidenciais ocorridos no Brasil levaram em pouco tempo a uma situação de melhora no quadro econômico e político, trazendo estabilidade, previsibilidade e reformas de instituições arcaicas. Em ambos os casos foi encontrada uma solução constitucional, sem rupturas institucionais, respeitando-se a democracia e o Estado de Direito.
As iniciativas que visam pensar além da política são bem intencionadas. Destas podem surgir ideias que contribuam para uma efetiva melhora em nossa sociedade. Claro que não podemos aceitar a corrupção como fato, entretanto, de nada adianta demonizar a política ou os políticos. Estes são o retrato de nossas escolhas e a política o único meio pelo qual pode-se encontrar entendimento para a solução de problemas em uma democracia. Apesar do ímpeto de ruptura que ronda os brasileiros, é melhor manter os pés no chão ao invés de embarcar em aventuras que possam ferir nossa democracia.
por Márcio Coimbra
fonte: Diário do Poder


domingo, 24 de dezembro de 2017

MISSA DO GALO

Dia destes ouvi muito ao longe, ecoando num sonho assombrado por reminiscências da infância, o cantar de um galo. Contraste com o urbano de asfalto e prédios, de trânsito e violência, aquela sonoridade foi acalanto que momentaneamente amorteceu os impactos da vida sofridos entre uma esperança e outra.
Percebi, então, com a nitidez que só os olhos do espírito possuem, que o canto do galo é evocação de algum momento do passado. Vem envolto em brumas do amanhecer para anunciar o dia, onde nunca sabemos o que sucederá. Tem uma intimidade esse som com quintais cheios de ciscares, de romãs pendendo de galhos para oferecer sua beleza rubra e apetitosa, de jabuticabeiras que serpenteiam em troncos retorcidos os negrores adocicados de suas uvas tropicais!
De novo cantou o galo em lonjuras que minhas sensações alcançaram. No sol que se elevava do horizonte aquela melodia combinou com uma expectativa alegre, um desabrochar de esperança desenhada nos labirintos do existir. Reconforto. Aconchego. Rede balançando. Risos perdidos no tempo das travessuras. Renascimento. Era isso que vinha marulhando pelo vento da aurora. Uma ternura estridente se expandia naquele ondear sonoro. Um chamamento para o mundo acordar. O galo, pensei, é o arauto da existência.
Nesta véspera de Natal, onde o verdadeiro conteúdo da comemoração se esvai, veio-me também, numa associação de ideias a Missa do Galo. Qual bispo teria batizado desse modo a missa, que no passado era celebrada à meia-noite com a solenidade de um ritual falado em latim? Naquele tempo que nem tão longe está, as mulheres cobriam a cabeça com véus rendados, o que as tornava bonitas e vaporosas para combinar com os mistérios do ritual. As casadas usavam mantilhas pretas, e as solteiras, brancas. Era um sinal de respeito ao local sagrado. Em algumas catedrais a música que vinha do órgão com toda a pompa do instrumento, intercalava-se com a angelical melodia dos corais que subia aos céus em espirais para louvar a Deus.
Depois da Missa do Galo, a ceia, a sobremesa da esplendorosa torta de frutas, o abrir dos presentes, a confraternização familiar. No presépio, o nascimento do Menino Jesus finalmente colocado na manjedoura entre Maria e José, em meio aos pastores e aos bichinhos de massa que olhavam espantados a estrela de papel dourado equilibrada por sobre a gruta.
Não se fazem mais Missas do Galo como as da minha meninice. Parece que agora sequer se chamam assim. Também não sei se são celebradas à meia-noite, porque há pressa para a ceia ou para a ida a algum baile. É cada vez mais difícil distinguir Natal de Réveillon, o que indica que o aniversariante anda esquecido. Portanto, prevalece uma festa profana sobre o ritual natalino, modificando-se a tradição para nela incorporar elementos de show. Desse modo, a liturgia alterada não favorece a introspecção que coloca o homem diante da divindade para com ela conversar.
Pois, bem, nesse Natal há algo estranho, como se perdida estivesse não só certo tipo de celebração como comportamentos e valores havidos nos confins de minha vida. Nem sequer sinto no ar aquele clima inconfundível, que envolvia as pessoas através de elos de solidariedade para tornar as atitudes mais amenas. Para falar a verdade, até Papai Noel está ficando cansativo. Há um em cada esquina, em cada loja, tentando vender.
Estes pensamentos são muito meus, e podem não ser compartilhados com quem lê neste instante estas linhas. Talvez, possam ter uma explicação. Errada sou eu que não sei mais brincar, pois é sabido que Natal é, definitivamente, uma festa de crianças. Não consigo ouvir os sinos que sempre me encantaram. Não capto a magia da Noite Feliz. Não estou vendo os milhares de pequenas lâmpadas chinesas que enfeitam prédios e casas. Não escuto as músicas natalinas. Só de memória consigo cantarolar: “Papai Noel, vê se você tem a felicidade para me dar”. Em vão busco, à meia-noite, a Missa do Galo que não existe mais.
Depois de muito esforço, de vagar por entre recordações e nostalgias, concluo que há um lugar seguro onde posso sempre encontrar o Natal. Basta seguir a estrela e olhar para a manjedoura. Ele está lá. Para que mais?
Então, pensei: não posso trair o Natal. Tenho sempre que reinventá-lo com as possibilidades da fé e com a beleza da esperança, porque o Natal está dentro da gente e não fora.

texto: Maria Lucia Victor Barbosa, escritora

O PLANO DOS REFÉNS DE LULA

PT vê campanha sem Lula, intervém nos diretórios, planeja questionar legalidade da disputa, contestar a legitimidade do eleito e confrontar a ‘alternativa fascista’ nas ruas.
O Partido dos Trabalhadores definiu sua estratégia para a campanha presidencial de 2018: “Eleição sem Lula é fraude”. Com essas cinco palavras o PT traduz sua expectativa sobre a virtual interdição do ex-presidente, numa eventual condenação em segunda instância por corrupção e lavagem de dinheiro. O julgamento da apelação de Lula contra a sentença do juiz Sergio Moro está marcado para 24 de janeiro, em Porto Alegre.
No último fim de semana, em São Paulo, dirigentes do PT traçaram um projeto para 2018 baseado na ratificação da condenação.
A premissa do plano é a construção da imagem de Lula na campanha como vítima de um sistema judicial manipulado pela “elite” para “impedir o povo de elegê-lo mais uma vez”, descrevem documentos internos.
Refém de Lula, o partido resolveu:
a) questionar a legalidade da disputa sem a eventual participação do ex-presidente;
b) contestar a legitimidade do presidente escolhido numa eleição sem o candidato petista;
c) estimular o “voto de protesto” em candidato indicado por Lula, seu principal cabo eleitoral.

Na terça (19), o PT anunciou uma virtual intervenção nos 26 diretórios estaduais e do Distrito Federal. 
O comunicado foi cristalino: “Fica desde já estabelecido que toda e qualquer definição de candidaturas e política de aliança nos estados terá que ser submetida antecipadamente à Comissão Executiva Nacional.”
Apostando num cenário eleitoral convulsionado, o alto-comando petista julga conveniente se preparar para a “crescente agressividade”, como define. Sob estímulo do ex-capitão de Lula, José Dirceu, recolhido em Brasília depois de condenado à prisão no mensalão e na Lava-Jato, abriu-se espaço até para formulações sobre confronto à “alternativa fascista” nas ruas.
Antes da reunião em São Paulo, Dirceu evocou o estilo retórico do movimento estudantil dos anos 60: “A hora é de ação não de palavras, transformar a fúria e revolta, a indignação e mesmo o ódio em energia, para a luta e o combate.” O PT vai realizar um “dia de revolta” em Porto Alegre.
Para a campanha, a radicalização teria como protagonistas grupos de “reação”, discretamente organizados. A iniciativa avança sob uma justificativa partidária oficial: a de que a eleição, sem Lula, “poderá resultar em rebeldia popular” e “desobediência civil”.
O plano dos generais petistas guarda alguma coerência com a necessidade de manter alinhados os grupos que fracionam o PT, o PCdoB e o PSOL, e os pragmáticos PDT e PSB.
Sob esse arco-íris encontra-se parte substantiva dos 34% do eleitorado que indica intenção de votar em Lula — principalmente, como reação aos que se mantêm no outro extremo, com Jair Bolsonaro, com 19% da preferência, segundo o Datafolha. As mesmas pesquisas indicam média de 40% de rejeição a Lula há 12 meses seguidos.
Entre o ex-metalúrgico e o ex-paraquedista prevalece a maioria de 47% de eleitores insatisfeita e em busca de alternativa. Sua fragmentação pode levar a uma situação semelhante à do Rio, como tem repetido o ex-ministro Nelson Jobim aos clientes do banco BTG Pactual. 
Em 2016, Marcelo Crivella, ex-senador do PRB e ex-bispo da Igreja Universal, venceu Marcelo Freixo, do PSOL, apoiado por uma frente autodenominada de esquerda.
por José Casado, O Globo. 

William Waack e a ideologia irracional de um país de analfabetos


Contra fatos, não há argumentos: estamos num país composto por maioria esmagadora de analfabetos/analfabetos funcionais. Esta é a premissa maior do nosso silogismo. Antes de qualquer exercício de comunicação temos que manter em nosso horizonte este incômodo fato…mais da metade dos brasileiros adultos tem apenas ensino fundamental…e ensino fundamental brasileiro, destaque-se! Todos sabemos o que, na prática, isso significa. Na média, um compatriota mal sabe pressionar a válvula da descarga sanitária…e isso porque precisa.

Bem, paradoxalmente, não será necessário gastar muito fosfato para explicar o quanto isso faz de nós presas fáceis a um grupo de espertalhões. A coisa toda se espalha para âmbitos os mais diversos: religião, política, cultura, educação. 

É fácil conduzir a todos para currais preparados para um gado assim domesticado. Dois ou três estímulos visuais, uma leve estocada ideológica, comportamento de bando e…pronto, estão todos nos cochos da vida social, alimentando-se do que lhes é ofertado sem grandes cerimônias.

Meu ponto aqui, no entanto, é mais específico. Quero falar rapidamente de um efeito das técnicas gramscianas (procura aí no Google “Gramsci”, você vai entender) aplicadas em larga escala nesta Zumbilândia chamada brasil (com b minúsculo, porque de um aspecto menor do país se trata): a saída de William Waack, um dos mais importantes jornalistas do país, da Globo.

O senhor Waack foi pego, numa gravação realizada enquanto estava fora do ar, proferindo frase racista, infeliz e vexatória. Algo injustificável, cujo simples existir deve ser motivo de séria reflexão para todos nós. Uma vez vazada a imagem – por uma figura deplorável que a esta altura já ocupa novamente o seu lugar de origem: o mais profundo esquecimento (o sujeito teve a cara de voltar ao estúdio para fazer uma foto junto à bancada para ironizar toda a situação) – o jornalista se desculpou: reconheceu o seu erro diante daqueles que, em suas palavras, “se sentiram ultrajados” pelo ocorrido. Digno e moral, como deve ser.



Imediatamente (e muito justamente) suspenso da programação, William Waack passou a sofrer um ataque histérico dos justiceiros de plantão, gente que não erra, seres humanos colocados na terra plana para nos ensinarem a todos que “não passarão”: “golpistas”, “brancos”, “héteros”, “fascistas” (quando não sabem do que acusar, sempre recorrem a “fascistas”!), “racistas” etc: tudo com aquela linguagem batida e cansativa que só um aparelhamento ideológico de décadas conseguiria promover.

“Sejamos homens…não queiramos ser deuses”, ensina um dos Sete Sábios da Antiga Grécia. Homens erram. E a perseguição messiânico-ideológica só é “divertida” enquanto dirigida ao outro. Quando o plano se inverte – e este é um movimento dialógico dificilmente evitável –, isto é, quando passamos nós a sermos o alvo, a coisa toda deixa de ser interessante e festiva.

William Waack errou…ponto! Que a ele fosse aplicada a dosimetria da pena, recurso fartamente conhecido no mundo contemporâneo das sanções (estão lembrados daquela? A diferença entre o remédio e o veneno não é a substância, mas a dose…). No cálculo devem ser levados em conta motivos atenuantes, por óbvio: sem antecedentes, serviços prestados à comunidade, brilhantismo ímpar na condução do seu trabalho cotidiano. Pena? Sei lá… suspensão por tempo determinado, punição pecuniária e pedido público de desculpas no primeiro minuto de jornal. Efeito pedagógico, corretivo e emblemático ao mesmo tempo. Mais do que isso, é caçada, não exigência de justiça. Ou vamos proscrever da face do planeta todos os que cometem erros desta natureza? Se a saída é essa, vamos além, para que pensarmos em campanhas educacionais, em esclarecimento, para que apostarmos no aperfeiçoamento e na mudança de quem hoje faz leitura torta da realidade? Com a devida vênia, devo dizer: sou professor. No dia em que não acreditar mais na possibilidade de melhorar alguém com o que faço, saio no outro dia da sala de aula. Ademais, vale aqui a máxima bíblica (e olha que sou um agnóstico de carteirinha): “quem nunca errou…”.

O caminho é longo…passa, primeiro, por alfabetizar, por ensinar que a realidade é algo muito mais complexa do que o “sim” e o “não” querem fazer entender. As mídias sociais, em especial, deram voz aos idiotas da aldeia (como bem disse Umberto Eco). E os idiotas estão decidindo, por pressão quantitativa, o futuro deste país. Perigoso…

Punição? Sim. Justiça? Sempre. Vingança? Cuidado…o próximo da fila pode ser você.


texto:  Dennys Garcia Xavier
publicado originalmente no Jornal Hora Extra